segunda-feira, setembro 25

ALEMANHA

A democracia na Alemanha será preservada após as eleições de ontem. A maioria doa alemães não esqueceu a tragédia provocada pelos nazi fascistas que os conduziu ao holocausto. Apesar de todas as vicissitudes da vida dos povos europeus creio que não será nunca mais possível escrever o que Camus escreveu am 1944:

«[…] Acontece-me, por vezes, ao voltar de uma dessas curtas tréguas que nos deixa a luta comum, pensar em todos os recantos da Europa que conheço bem. É uma terra magnífica, feita de sacrifícios e de história. Revejo as peregrinações que fiz com todos os homens do Ocidente. As rosas nos claustros de Florença, as tulipas douradas de Cracóvia, o Hradschin com os seus paços mortos, as estátuas contorcidas da ponte Karl sobre Ultava, os delicados jardins de Salzburgo. Todas essas flores, essas pedras, essas colinas e essas paisagens onde o tempo dos homens e o tempo da natureza confundiram velhas árvores e monumentos! A minha memória fundiu essas imagens sobrepostas para delas formar um rosto único: o da minha pátria maior. Algo me oprime quando penso, então, que sobre esse rosto enérgico e atormentado paira, desde alguns anos, a vossa sombra. E no entanto, há alguns desses lugares que você visitou comigo. Eu não imaginava, nessa altura, que fosse um dia necessário defendê-los contra os vossos. E agora ainda, em certos momentos de raiva e desespero, lamento que as rosas possam ainda crescer no claustro de São Marcos, os pombos lançar-se em bandos da catedral de Salzburgo e os gerânios vermelhos germinarem incessantemente nos pequenos cemitérios da Silésia.

Mas, noutros momentos, e são esses os verdadeiros, sinto-me feliz que assim seja. Porque todas as paisagens, todas as flores e todos os trabalhos, a mais antiga das terras, vos demonstram, em cada Primavera, que há coisas que não podereis abafar no sangue. […] Sei assim que tudo na Europa, a paisagem e a alma, vos rejeitam serenamente, sem ódios desordenados, mas com a força calma das vitórias. As armas de que dispõe o espírito europeu contra as vossas são as mesmas que nesta terra sempre renascente fazem crescer as searas e as corolas. O combate em que nos empenhamos possui a certeza da vitória, porque é teimoso como a Primavera. […] » - pp. 68-71

Albert Camus, in Cartas a um Amigo Alemão, Carta Terceira (Abril de 1944)

sábado, setembro 23

AUTÁRQUICAS - A UMA SEMANA DO DIA DO VOTO

A uma semana do dia da votação para as eleições autárquicas de 2017. Saem sondagens deste e daquele concelho, os mais importantes do ponto de vista demográfico e politico. As sondagens conhecidas nos maiores, como Lisboa, Sintra, Porto, Loures, ... parecem indiciar vitórias dos partidos da esquerda prenunciando, salvo qualquer surpresa, uma derrota severa do PSD. Mas neste tipo de eleição mais se aplica aquela célebra frase: "prognósticos, só no fim do jogo."
Costa, por sua vez, explica que a meio do mandato do governo um bom resultado do PS é crucial para o que falta da legislatura. É mesmo o mais importante na leitura politica que as eleições vão suscitar. Se o PS alcançar o seu objetivo de ganhar mais presidências de Câmaras e Freguesias a gestão da maioria politica que apoia o governo ficará mais confortável desde que o PCP não saia derrotado.
Estas eleições são certamente as mais participadas de todas, aquelas que envolvem um maior número de candidatos, o terreno para o maior número de estreias na ação politica de cidadãos que sempre estiveram arredados delas. Isso é um bom sinal para a democracia seja qual for o resultado final. O meu voto é daqueles que não trás consigo qualquer surpresa. Salvo qualquer situação anormal, que não é o caso, voto sempre no PS. O fio de prumo, o garante do equilíbrio do sistema democrático português e da preservação do estado social.

sábado, setembro 16

DESVIOS

Nas nossas sociedades, e a portuguesa não é exceção, o fenómeno mais preocupante é o da emergência, ameaçando tomar expressão politica institucional, do ideário fascista, sob diversas capas, albergado em partidos que nasceram, e cresceram, com o advento da democracia liberal. No caso português não deixa de ser perturbante - as coisas são como são - que a liderança do PSD apoie um candidato a uma autarquia que integra no seu programa de ação posições racistas e xenófobas. Tomo-o na minha boa fé como um epifenómeno, mas nunca fiando, na espera que os sociais democratas autênticos, que os há muitos e bons no PSD, ponham cobro ao desaforo.

ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS - 1 OUTUBRO

Mais uma pincelada acerca das eleições autárquicas que se avizinham. Dia 1 de outubro. Será um domingo como é da tradição portuguesa, mas poderiam realizar-se num dia de semana como acontece noutros países. Para mim seria indiferente pois sempre votei em todas as eleições em democracia (e mesmo nalgumas farsas eleitorais em ditadura). Gosto de votar, não só por dever mas por prazer. (Talvez fosse um dia destes, no entanto, de fazer uma revisão profunda à lei eleitoral no âmbito da modernização administrativa, para tornar o voto mais presto e atraente - vamos a isso senhor Governo e/ou Senhoras e senhores deputados?). Mesmo que rebentem as mais desvairadas borbulhas caluniosas, ou floresçam alguns populismos protofascistas, a opinião e o debate são livres em Portugal, o que alguns não valorizam o suficiente. A falta da liberdade não é uma experiência que se recomende, nem é de ter comiseração pela falta de memória de suas nefastas consequências. O meu pai, nascido em 1910, só conheceu, na idade adulta, a cor da liberdade com 63 anos de idade...é algo inexplicável mas que aconteceu mesmo!
E quanto ao próximo voto aqui fica a minha declaração de interesses: em conformidade com o meu ideário, vou votar, em Lisboa, no PS. (Outra nunca poderia ser a minha opção pois, desta vez, até pertenço à comissão de honra cujo convite aceitei com muito gosto.)

quinta-feira, setembro 7

AUTÁRQUICAS

Umas pinceladas acerca das eleições autárquicas, se não me engano foi o Pacheco Pereira que escreveu no Efémera, ou num artigo, que estas eram as eleições autárquicas com o maior número de candidatos de sempre. É um sinal de vitalidade da nossa democracia; mas o que queria dizer é do meu apreço, em geral, pelos candidatos, vão em listas partidárias, ou independentes (falsos ou verdadeiros independentes, pois nunca se sabe!), que encaram todos os dias os cidadãos e a imensa multidão de problemas que eles exigem sejam resolvidos. Não me preocupa uma borbulha que rebente na face da democracia, o que me preocupa é a limpeza ostentada na mascara dos populismos.

domingo, setembro 3

COREIA DO NORTE

Hoje, pela manhã, a Coreia do Norte realizou um teste nuclear de primeiro grau. Um pequeno país, pobre, dotado de um regime politico autocrático, ameaça o domínio das grandes potências. Um enigma, ou talvez não. Uma tese para explicar o fenómeno, aparentemente demasiadamente linear, é a de que a Coreia do Norte será uma marionete da China. Os seus avanços tecnológicos na área militar, em particular, na produção da bomba atómica e de misseis balísticos de grande alcance carecem de quem lhe forneça o "saber fazer" e a matéria prima. Além disso carecem de uma proteção politica a todos os níveis que somente a vizinha China pode propiciar. A Coreia do Norte estaria a ameaçar os Estados Unidos, e seus aliados na região, em resposta às ameaças explicitas da nova administração dos USA. É conhecida a relação desigual, em diversos planos, USA/China. A disputa é estratégica na justa medida em que estão em confronto as duas maiores potências mundiais e, ao que parece, no plano militar, a China fez nos últimos anos avanços que deixaram os USA para trás. Uma coisa é certa e vem com o certificado de garantia de uma história antiga: a China nunca foi derrotada no plano militar por razões demográficas e territoriais, de cultura e sageza, a que junta a sua infinita paciência. Os portugueses no século XV, um pequeno país pobre, ameaçou o domínio da China nos mares e territórios nos quais a China já antes navegava, mas eram outros os tempos, embora Portugal tenha tido sucesso não só à custa da sua ousadia fundada no conhecimento, mas também no avanço tecnológico das suas armas nos combates pelo domínio das rotas marítimas. A China, no plano estratégico, em que o tempo conta mais que do que o espaço, acabará sempre por vencer.

sexta-feira, agosto 25

ANGOLA

Eleições em Angola com resultado pré anunciado. Os crédulos acreditam que algo vai mudar. Creio que nada, de essencial, mudará. De qualquer forma a realização de eleições é um sinal favorável para a emergência do modelo democrático. Os portugueses precisam ter esperança no futuro de Angola.

segunda-feira, agosto 21

O anúncio do calor

Calor abrasador. Quando sinto este bafo quente na rua, em lisboa, sei que ardem os campos de arvoredo por esse país fora. Além do desastre da destruição da natureza, seja qual for a sua estrutura física, os incêndios florestais põem a nu a pobreza que a longura dos campos, por vezes tão perto das cidades, em vão dá a ilusão de esconder. O desastre situa-se de ambos os lados da barricada, tal como nas guerras, pois um incêndio, afinal, não é mais do que uma batalha perdida de que sobram os escombros que o tempo removerá. Que me lembre nunca vi um incêndio florestal a não ser ao longe como no outro dia pelos lados de Canal Caveira visto da autoestrada do sul. Nem todos podemos ter acesso direto ao inferno na terra, nem sequer a encarar o diabo feito labareda vociferante. Como já tem sido dito, e escrito, por quem sabe o país paga, com regular falta de parcimónia, o preço pelo desprezo a que vota o tempo e pela gula endeusada do sucesso (lucro) imediato. Haja saúde!

quinta-feira, agosto 17

Verão Quente

Verão quente! Onde já ouvi esta frase? O mundo mediterrânico arde como se fosse uma terra maldita, em desertificação, abandonada pelo seu povo, ressequida, em boa parte a caminho de ser deserto. Incluindo o sul de Portugal. Alguns falam em terrorismo. Não creio. As mortes dramatizam. Mas os incêndios são recorrentes nestas regiões. Desde que escrevo nas redes sociais com regularidade, pelos finais de 2003, já escrevi inúmeras vezes acerca de incêndios florestais. Não conheço o suficiente do assunto para pronunciamentos de saber feito. Creio somente, por intuição, que a raiz da irrupção dos incêndios está na conjugação da seca com a desertificação humana. Como combater o fenómeno? Invertendo o ciclo da seca e da desertificação. Ocupar humanamente o território e irrigá-lo. Tudo são ideias que levam a politicas consideradas impossíveis ou mesmo utópicas. Esta arreigada descrença em mudanças profundas, assumidas coletivamente, assentes em politicas que valorizem modelos de organização coletiva (não coletivistas), é o travão a qualquer verdadeira mudança. Verão quente! Numa das suas primeiras obras, de juventude, Camus escreveu no capítulo “As amendoeiras”, de Núpcias, o Verão: (…) A primeira coisa é não desesperar. Não prestemos ouvidos demasiadamente àqueles que gritam, anunciando o fim do mundo. As civilizações não morrem assim tão facilmente; e mesmo que o mundo estivesse a ponto de vir abaixo, isso só ocorreria depois de ruírem outros. É bem verdade que vivemos numa época trágica. Contudo, muita gente, confunde o trágico com o desespero. “O trágico”, dizia Lawrence, “deveria ser uma espécie de grande pontapé dado na infelicidade”